
Ser açoriano é discutir com o mar. Interroga-lo. É não ter nada como seguro.
Esta é uma marca invisível que nos faz ser tão diferentes e únicos. E este mar é também ele único, porque, é com quem criamos intimidade.
É ele que nos educa enquanto ilhéus. Ensina-nos a escutar marés e obriga-nos a olhar a terra. A decifrar cheiros, apreciar verdes, reconhecer ínfimos pormenores que a qualquer outro mortal passaria despercebido.
Romanceamos a terra e enchemos o mar de poemas. Espanta-mo-nos com os amanheceres e arrepiamo-nos com o chegar da noite.
Fica tudo tão quieto. Como se a ilha adormecesse connosco ao colo. Por isso somos açorianos. Esta é a nossa Identidade. Este mar que nos embala, prende e liberta.
... A Identidade açoriana está nesta quietude inquieta disfarçada de uma beleza estonteante de verdes e de flores. É o mar que nos remete para a ilha. Que nos obriga a ser ilhéus.
E podemos ir longe, correr mundos, que esta marca será sempre levada por nós. Esta inquietação que nos desperta os sentidos fará sempre parte do ser-se açoriano. Não será por acaso que qualquer terceirense no mais recôndito lugar do universo mesmo de olhos vendados reconhecerá o cheiro do mar, ou do enxofre que se cola na pele de qualquer ilhéu.
A maresia que invade e persegue a alma, define o açoriano na sua ousadia e coragem. Somos destemidos. Um açoriano entra no mar como quem entra em casa. Cruzamos as ilhas entre si em barcos pequenos e frágeis e pisamos as nuvens como quem desliza em caminhos de ferro. O mar obriga-nos a voar. Empurra-nos para as nuvens. Ensina-nos a ver do céu a ilha e a ser fortes e corajosos.
Ser açoriano é muito mais do que se viver com o mar à porta. É dormir em cima de cinzas que acordam em lava sem aviso e despertam os mais ínfimos sentidos. O açoriano tem uma linguagem única e intima quase indecifrável com o mar que lhe permite adiantar o aparecimento de sol ou chuva. É uma linguagem silenciosa feita de movimentos serenos nem sempre quietos. É o dormir embalado nas mares e acordar envolto em tempestades ciclónicas sempre tratadas tu cá tu lá com a típica mansidão de ser-se açoriano.
Autor desconhecido.